Samsara

Cine Jung: Samsara

2011

Samsara é um documentário de 2011, dirigido por Ron Fricke e produzido por Mark Magidson, sendo o sucessor de Baraka (1992), outro documentário do mesmo gênero. Samsara foi filmado durante cinco anos em 25 países, no formato analógico em 70 mm e convertido ao formato digital. O filme, apesar de ser considerado documentário, possui um estilo experimental, uma "uma meditação guiada não-verbal".

Samsara 


Desmedidas, limites e recomeços.

Desde os 5 anos de idade o lama Tashi (Shawn Ku) viveu em um mosteiro, como reza a tradição budista. Tendo sua vida sido dedicada à meditação, ensinamentos e mantras, ele entra em conflito assim que percebe seus desejos e paixões virem a tona. Apaixona-se por Pema (Christy Chung) e conhece os caminhos tortuosos de posses e renúncias. Este é o eixo condutor de “Samsara” (Samsara, 2001), obra cinematográfica escrita por Tim Baker e dirigida por Pan Nalin. 

 “Samsara” é uma palavra de origem sânscrita que significa “fluxo incessante de renascimentos através dos mundos”. A maioria das tradições considera Samsara uma condição a ser superada, pois os ciclos se repetem apenas no homem que não atingiu sua iluminação. 

 Podemos compreender o ciclo de vida e morte também como metáfora psicológica: o nascer e morrer incessante dentro de uma mesma encarnação. Há momentos na vida em que as experiências nos levam à morte e renascemos em um nível de consciência mais elevado. 

 Podemos perceber nas diversas religiões ao redor do mundo, especialmente entre as religiões cristãs, a questão da abstinência sexual e o celibato como forma de atingir a iluminação. Desta forma, o homem deve abrir mão de suas paixões e desejos para que atinja a plenitude espiritual. Por outro lado, estamos atados a um corpo físico. Temos desejos. Este é o grande conflito humano quando se dispõe a seguir por este caminho de iluminação.

            Esta reflexão também é feita pelo filósofo SCHOPENHAUER (2001), que introduziu o budismo e o pensamento indiano na metafísica alemã. Para ele, a felicidade só pode ser atingida pela ascese (ou anulação da vontade, das paixões). A felicidade atingida por meio da satisfação dos desejos não é uma felicidade real, sendo que o desejo incessante leva à dor e ao sofrimento humano. A real felicidade é obtida pela negação dos desejos. 

 O filme mostra a ótica do autor a respeito da castidade e do celibato – a negação dos desejos e a busca pelo Nirvana (estado pleno de iluminação) assim como os conflitos decorrentes desta busca pela iluminação.           

 A principal crítica ao filme, principalmente entre os monges e estudiosos das filosofias orientais reside na seguinte questão: para um homem que passou a vida, desde a infância, em um mosteiro, provavelmente deve ter tido muitas experiências e mergulhado em estados profundos de alma, ainda mais por ter permanecido isolado e em meditação por 3 anos, 3 meses, 3 semanas e 3 dias. Como poderia perder toda esta vivência espiritual no momento em que se relaciona com uma mulher e se entrega aos desejos? De certa forma, o desejo cega o indivíduo, mas no íntimo ficam adormecidas suas vivências espirituais. Assim sendo, as experiências de estados profundos de alma não morrem, apenas adormecem. 

 A elevação espiritual vai além do celibato e da castidade. Para a existência da humanidade também é necessário o ato amoroso, o encontro sexual que culmina no nascimento de um novo ser. Neste sentido é inegável que, em condições adequadas, haja uma experiência profunda e transformadora tanto para o homem quanto para a mulher. Daí provém o questionamento de Pema a respeito do papel do feminino como fator essencial para o processo de iluminação de Buda.    

 Por outro lado, os relacionamentos sexuais muitas vezes se tornam violentos, libertinos e causam sofrimento e aprisionamento, distanciando o indivíduo de sua elevação espiritual. 

 O conflito entre os desejos do corpo e espírito de Tashi culmina em sua reflexão no templo, enquanto observa a imagem de Buda: “Até a Ele foi concedida uma existência mundana, até aos 29 anos! Mas, desde que tinha 5 anos, eu fui disciplinado a viver como Buda, após Ele ter renunciado ao mundo. Por quê? Como podemos saber que Seu Iluminismo não foi também o resultado direto de Sua existência mundana? Apo, onde está a liberdade a mim prometida após a rígida disciplina monástica? E a prometida satisfação do nosso voto de celibato?” E cita Buda: “Não deves aceitar meus ensinamentos de pronto a menos, e até, que os entendas do teu próprio ponto de vista”. Tashi conclui: “Tem coisas que devemos desaprender para poder aprendê-las. E tem coisas que precisamos possuir para poder renunciar a elas”.

A partir deste instante se configura a Hybris - a desmedida, o exagero, o excesso no comportamento de uma pessoa: orgulho, insolência, arrebatamento. (JAPIASSÚ, 2008).

 Tashi compara sua vida à de Buda, refletindo que até aquele momento ele havia renunciado mais que o próprio Buda. No desejo de trilhar seu caminho tal qual o Divino, comete a violência contra os deuses.

 Segundo BRANDÃO (2000), a Hybris é uma violência do homem contra os deuses, por ter ultrapassado a sua medida (métron) como ser humano. A hybris desencadeia a némesis (ciúme divino e consequente punição pela desmedida praticada). A punição leva o homem, através da áte (cegueira da razão) a agir de modo que tudo que faça o conduza à desgraça inevitável, realizando apenas ações que o levem a agir contra si mesmo, caindo nas garras da moira (destino cego).

 Para LEITE (2010), o herói possui um poder que o aproxima demais dos deuses, e acredita ter o direito de realizar plenamente toda a demanda de sua força divina. Porém, nas mãos humanas do herói, esta força se torna muitas vezes incontrolável, e as consequências podem ser desastrosas e até criminosas. 

 Desta forma, Tashi vivencia o mundano, os prazeres e paixões. Qual teria sido a experiência desastrosa de Tashi? Foi apenas a satisfação sexual ou teve, de fato, um encontro amoroso com Pema? 

 Após vivenciar as experiências de pai e amante, Tashi percebe que se distanciou do Iluminado: sente a dor e o sofrimento de ter que renunciar a suas paixões e desejos e até mesmo do feminino que o acompanhou durante sua jornada.

Uma questão importante que devemos salientar é o fato de Tashi se banhar no rio duas vezes: uma por ocasião de sua saída do mosteiro e a segunda quando decide retornar. Podemos fazer uma analogia à máxima de Heráclito: “um homem não se banha duas vezes no mesmo rio”. Desta forma, ambas a imagens revelam-se como uma jornada de transformação. Na primeira, rumo à satisfação do desejo e, na segunda, em busca de uma dimensão espiritual.   

            A dissolução da ilusão produzida pelo desejo é chamada de Karma (e não por acaso é este o nome dado ao filho de Tashi). O homem só pode ser liberto do ciclo de renascimentos - o Samsara – tão logo se libertar de seus desejos e paixões. Só assim é possível atingir o numinoso ou a experiência máxima com o divino. 

 Pouco antes da morte, Apo deixa uma mensagem para Tashi: “Deverá um homem satisfazer todos os seus desejos, ou procurar apenas saciar um?” 

 A tomada de consciência sobre este conflito leva Tashi à vivência da própria dor e consequentemente de sua redenção, que culmina em seu retorno ao mosteiro. Ao chegar às muralhas, lê a mesma mensagem inscrita em uma pedra, por ocasião de sua saída do longo período de isolamento: “Como alguém pode impedir uma gota de água de jamais secar?” E no verso a resposta: “Atirando-a no mar.”

 Este provérbio tibetano revela o quanto o ego é ínfimo se comparado à imensidão do cosmos e nos convida ao encontro com a totalidade e com o arquétipo central: o Self. A individuação também é um processo árduo, de posses e renúncias, de aprender e desaprender a todo instante. Quando o ego se abre para o verdadeiro sentido da vida, inicia-se nossa jornada de Individuação: a coragem para lançar nossa própria gota ao mar...

 

Referências Bibliográficas

BRANDÃO, Junito de Souza. Dicionário Mítico-Etimológico da Mitologia Grega. Petrópolis: Vozes, 2000.

JAPIASSÚ, Hilton e MARCONDES, Danilo. Dicionário Básico de Filosofia. 5.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

LEITE, Isabela Fernandes Soares. Criação, Hybris e Transgressão na Mitologia Heróica. Anais do XVIII Congresso da AJB – Criação. Curitiba-PR, 2010. 

SCHOPENHAUER, A. O mundo como vontade e representação. Rio de Janeiro: Contraponto, 2001.

 

Érika Gonçalves Cardim

 

Psicóloga, Especialista em Psicologia Analítica Junguiana - Unicamp

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