A Dimensão Arquetípica dos Orixás

Um estudo dos componentes simbólicos da psique brasileira

Psicologia e Religião

         O culto dos Orixás atravessou o oceano, vindo no coração dos povos negros escravizados, e fincou fortes raízes em solo brasileiro. Aqui estes deuses encontraram-se com outros que vieram de Portugal, através da religiosidade popular do colonizador, e não pela teologia oficial da Igreja: bem como enlaçaram-se das práticas indígenas da pajelança. Neste contexto histórico, a religiosidade brasileira desenvolveu formas, cores, ritos e símbolos, dos quais podemos citar a Umbanda como o mais representativo culto de desenvolvimento sincrético. Neste sentido, podemos afirmar que as divindades do Candomblé e Umbanda povoam a psique simbólica da maioria dos brasileiros, aproximadamente como os deuses helênicos povoavam a dinâmica simbólica da antiga Grécia. O conhecimento do conteúdo simbólico contido nos cultos de Orixá fornecem chaves de entendimento para processos psiquicos, sejam estes individuais ou coletivos. Isto só é possível graças às analogias míticas, que podemos traçar entre os deuses de várias culturas. Por exemplo, deuses que têm por elemento o raio e o trovão: Zeus, Tupã e Xangô.

        Em um contexto de população fortemente influenciada pelos cultos afro-brasileiros, é de vital importância que o conteúdo mítico-simbólico destes cultos sejam conhecidos e compreendidos em seu sentido psicológico. Os símbolos e deuses cultuados nos cultos afro-brasileiros são mitologias vivas, pois que a religião está viva, diferentemente dos deuses e mitos helênicos, que na atualidade só podem ser compreendidos através de um exercício de interpretação cognitiva, visto estar o helenismo, como religião do povo, morto. Uma das possibilidades de utilização desta mitologia viva é a compreensão de vivências pessoais, de símbolos e de sonhos através da amplificação. Buscar o sentido psicológico do símbolo e entender qual a sua mensagem é uma das metas do psicólogo que atua em clínica, sem perder de vista o contexto sócio-cultural de quem o procura, e isto inclui a vivência religiosa do sujeito em questão. O universo religioso de quem busca ajuda psicoterapêutica deve ser respeitado e compreendido como um meio de expressão da psique individual, seja esta uma expressão patológica ou criativa. Um estudo de caso, em que o sujeito não conseguia aproximar-se física e afetivamente do sexo oposto, pode ser elucidativo para o que foi exposto acima. A paciente era uma jovem de 27 anos que havia sofrido graves queimaduras nas pernas, barriga e genitais, quando estava com 9 anos de idade. Não consegui criar um relacionamento duradouro ou íntimo com ninguém. Durante o processo terapêutico, apresentou um sonho no qual ela se cobria de palhas. Esta é uma figura bem conhecida do panteão africano, é a figura mítica de Obaluaê, o médico ferido, análogo à Quiron, o centauro. Esta imagem serviu de elemento simbólico sintetizador de seu conflito, e através de sua amplificação e integração, pode a paciente abandonar os medos de rejeição e vivenciar uma relação íntima criativa e realizadora. O estudo dos símbolos religiosos de nossa população oferecerão, como já têm oferecido, um inestimável auxílio para a compreensão da psique brasileira. 

 

Referências Bibliográficas

VERGER, P. Os Orixás, Brasilia, Corrupio, 1986; 

NEGRÃO, L.N. Entre a Cruz e a Encruzilhada, São Paulo, Edusp. 1996; 

CACCIATORE,ºG. Dicionário dos Cultos Afro-Brasileiros, Rio de Janeiro, Forense, 1977; 

SEGATO, R.L. Santos e Daimones, Brasilia, Universidade de Brasilia, 1995

 

Prof. Dr. José Jorge de Morais Zacharias

Psícólogo - Analista Junguiano

Mestre e Doutor em Psicologia Clínica pelo Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo

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