Winnicotti

A constituição do mundo psíquico na concepção Winnicottiana

Winnicott

As contribuições de Winnicott enriqueceram a concepção psicanalítica sobre as bases do desenvolvimento emocional precoce (Winnicott, 1945/1978), principalmente no que concerne ao conceito de fenômenos e objetos transicionais, produzidos em uma área intermediária situada entre o mundo interno e o mundo externo. Winnicott formulou uma concepção sobre a constituição do mundo interno bastante original, afastando-se da doutrina freudiana à medida que não recorre à teoria pulsional. Se para Freud o objeto é pensado como objeto da pulsão (Laplanche & Pontalis, 1967/1983), na vertente winnicottiana o objeto adquire outro estatuto, relacionado à experiência da transicionalidade e não mais à organização pulsional do sujeito. 

Os Primórdios do Desenvolvimento Emocional 

Winnicott (1952/1978) parte do ponto de vista de que a aquisição saudável da posição depressiva no desenvolvimento emocional pressupõe, além de um cuidadoso manejo do desmame, um desenvolvimento anterior adequado. Para compreender as psicoses, precisamos remeter a esses estádios mais primordiais da psique. A desilusão, para Winnicott (1952/1978), é um fenômeno mais amplo que antecede ao desmame. Enquanto o desmame implica uma alimentação bem-sucedida, a desilusão está relacionada ao fornecimento adequado de "oportunidades para ilusão". Ou seja, a mãe deve inicialmente fornecer ao bebê a ilusão de que o que ele cria está mesmo lá para ser encontrado. 

Em outras palavras, através de uma adaptação ativa às necessidades da criança, o meio ambiente a torna capaz de permanecer em um estado de isolamento imperturbado, ocupando um espaço em que ela possa desenvolver sua vida de fantasia – um mundo secreto sentido como só seu, onde mais tarde vai se alojar um aparelho psíquico e uma organização dos processos de pensamento. O bebê, que não tem consciência desse suprimento por parte do objeto, entrega-se à fruição de um movimento espontâneo. Se tudo correr bem, o meio ambiente é descoberto, sem que haja uma perda do sentido de self. 

O fracasso ambiental nesse ponto do desenvolvimento acirra o potencial paranóide. O bebê se vê obrigado a se defender de intensas ansiedades paranóides, e para tanto organiza defesas igualmente vigorosas. Além disso, recolhe-se para seu próprio mundo interno (introversão patológica), um mundo que ainda não está bem organizado. Para se livrar da perseguição do ambiente, deixa de adquirir o status de unidade, "renunciando" ao compromisso de crescer e conquistar sua própria autonomia. 

Essa é a versão pessoal que Winnicott (1952/1978) dá para o conceito de posição esquizoparanóide descrito por Klein (1946/1982). Nela introduz, contudo, uma diferença fundamental em relação ao pensamento kleiniano, que ele não deixa de acentuar: é o fracasso ambiental nos primórdios do desenvolvimento que leva à edificação dessa organização defensiva, e não um suposto impulso de auto-aniquilamento, um sadismo destrutivo inato ou qualquer tendência que possa ser atribuída à hereditariedade (loparic, 1996) 

Uma Teoria do Amadurecimento Humano 

Winnicott (1963c/1983) considera que, para compreendermos as desordens do tipo da esquizofrenia, é necessário examinarmos os processos de maturação nos estágios iniciais do desenvolvimento emocional, uma época em que muito desse desenvolvimento está se iniciando e nenhum processo se completando. Nesse momento, as tendências básicas correspondem à maturação e à dependência. 

A psicanálise winnicottiana implica uma teoria do amadurecimento humano. Como vimos, as bases da saúde mental do indivíduo são estabelecidas nos estádios iniciais do desenvolvimento, e envolvem basicamente os processos de maturação, que são tendências herdadas, e as condições ambientais necessárias para que eles se realizem (Winnicott, 1963b/1983). Mas não é o ambiente que faz o bebê crescer, nem determina o sentido desse crescimento, mas apenas facilita, quando for suficientemente bom, o processo de maturação.A única herança admitida por Winnicott é o potencial inato para o amadurecimento, que ocorre entre dois estados de não-vida 3. Toda a existência decorre nesse intervalo entre o não-ser e o ser, na luta do indivíduo para não sucumbir aos estados de dissolução e estender, ao longo do tempo, a continuidade do seu ser, mediante o funcionamento do processo maturacional. 

Essa continuidade não pode ser assegurada pelo indivíduo por si só, mas depende de um meio ambiente facilitador. Por conseguinte, a falha da provisão básica inicial perturba os processos de maturação, barrando o crescimento emocional da criança. Nesse sentido, o que constitui a etiologia das psicoses, em particular da esquizofrenia, é uma falha do processo de maturação e integração. "Psicose é uma doença de deficiência do ambiente" (Winnicott, 1963b/1983, p. 231). Isso não deve ser entendido como a presença de experiências traumáticas severas ou a ocorrência de eventos adversos durante a primeira infância . O ponto central é que essas falhas são imprevisíveis. Elas não podem ser consideradas pelo bebê como projeções, porque ele ainda não atingiu um estado tal em que a estrutura de ego torne possível atribuir ao ambiente a produção desses fracassos, já que não há uma oposição inicial entre o externo e o interno. O resultado mais marcante das falhas ambientais é um sentimento permanente de aniquilamento e pânico que toma conta do bebê. A continuidade de sua existência é subitamente interrompida Loparic, 1996). 

O complexo de Édipo é uma função do amadurecimento, e não o inverso (Loparic, 1996). E pode ocorrer de ele nem se formar, ou que os efeitos da situação edípica não incidam sobre o indivíduo, a tal ponto que o complexo possa ser sentido como tal. Por essa visão, o que especifica a condição humana não é o fato de sermos, desde o início, um Édipo em potencial (Loparic, 1996), mas de sermos seres frágeis, finitos, que precisam de um outro ser humano para continuar existindo. A sofisticada metapsicologia freudiana, apesar de todo o seu aparato dinâmico e estrutural, tem um poder limitado para explicar os transtornos nos quais incidem as angústias impensáveis, que cada vez mais têm se transformado no paradigma da demanda de tratamento na época contemporânea. 

Desse modo, investigando as particularidades dos fenômenos que têm origem nesses estádios mais elementares do existir humano, segundo Loparic (1996), Winnicott rejeita a idéia do conflito edípico como motor do desenvolvimento psíquico e fonte precoce das neuroses. O que move o bebê, segundo ele, é o próprio fato de estar vivo. O bebê não deseja incorporar a mãe, e muito menos castrar o pai (Winnicott, 1987/1990). Tudo o que ele anseia é a presença reasseguradora da mãe, que lhe inspire uma confiança básica em si mesmo e no mundo. Somente quando o seu contato com a mãe-ambiente for satisfatório, o bebê poderá adquirir a capacidade de usar os seus mecanismos mentais. 

As Angústias Impensáveis 

Segundo Loparic (1996), são angústias relacionadas não à função sexual, mas às múltiplas ameaças ao sentimento de existir que assolam o bebê, tais como o temor do retorno a um estado de não-integração (levando ao aniquilamento e à ruptura da linha de continuidade do ser), o medo da perda de contato com a realidade e o temor da desorientação no espaço, o pânico do desalojamento do próprio corpo (o despencar no vazio) e de um ambiente físico imprevisível, etc. Essas angústias primárias são impensáveis porque não podem ser definidas em termos de relações pulsionais de objeto, baseadas no modelo representacional (isto é, relações mediadas por representações de objeto, ou seja, representações mentais). Ocorre que tais angústias não acedem à percepção, nem chegam a ter um estatuto de fantasia, e à medida que não ganham conteúdo representacional, são impedidas de alcançar a simbolização. 

Ou seja, tudo começa com o nascimento, que é um problema fundamentalmente do bebê, não da mãe (Loparic, 1996). E o bebê, como tal, não existe no início, segundo a conhecida expressão de Winnicott (1971/1975). Há apenas uma configuração inicial e indissolúvel, formada pelo bebê e o ambiente, do qual a criança não se diferencia. Isso porque nenhuma distinção primordial entre o interno e o externo é pressuposta, como em Melanie Klein. O que para Klein constitui o bom objeto (seio bom), para Winnicott resume-se tão somente à maternagem acompanhada da amamentação. Em contrapartida, não existe algo semelhante a um mau objeto (seio mau), alvo de sucessivos ataques desferidos pela criança. E, à medida que não há noção de exterioridade, não se pode falar de mecanismos de projeção ou introjeção operando desde o nascimento. Só é possível projetar se há um continente para acolher a projeção. Em uma situação como essa, o bebê não pode sentir ódio pelo objeto, pois não sabe o que é possuir algo diferente de si mesmo. A própria capacidade de possuir e de usar o objeto (evolução da "relação de objeto" para o "uso do objeto") deve ser construída na relação satisfatória com a mãe-ambiente (Winnicott, 1969/1975a). 

Para Klein (1946/1982), a ênfase está posta no interno, enquanto que para Freud (segundo Pereda, 1997) a angústia é sempre marcada pela carência dos primórdios e pela perda do objeto (ou nas fantasias de castração). Ou seja, se em Klein importa a pulsão de morte, em Freud contam as perdas. Já Winnicott (segundo Pereda, 1997) introduz a importância radical do outro no processo de estruturação da subjetividade, rompendo com a dicotomia interno-externo. 

Talvez o que sobreviva não seja o objeto (que existe para ser "morto"), mas o sujeito marcado pela perda ou pela destruição do objeto, testemunhando o aparecimento da fantasia, como uma "metáfora viva" que dá acesso ao pensamento e à cultura. Winnicott destaca que no estabelecimento da alteridade algo se perde ao se adquirir essa conquista. Já as falhas e distorções do brincar (processo simbólico) levam à formação de formações e divisões que se estruturam em pseudo-identificações, na linha do falso self. As perturbações ou a detenção do brincar criam condições para o desenvolvimento de patologias infantis e a base para os transtornos do adulto. 

A Experiência Ilusória e o Advento do Objeto Transicional 

No decorrer do desenvolvimento psíquico normal, a adaptação ativa que a mãe propicia, procurando atender às necessidades que variam de acordo com as diferentes etapas do desenvolvimento, nutre o potencial criativo da criança. Isso origina uma prontidão para a alucinação. O amor e a compreensão proporcionam a identificação da mãe às necessidades do bebê, a ponto de ela fornecer-lhe algo além do alimento, que é a possibilidade de usar criativamente seu potencial para alucinar o seio provedor. A repetição dessa experiência desencadeia a habilidade do bebê de usar o recurso da ilusão, sem a qual é impossível o contato entre a psique e o meio ambiente. Isso permite que o bebê construa, nesse espaço de ilusionamento propiciado pela mãe, um objeto que o console e lhe dê conforto: o objeto transicional (Winnicott, 1951/1978). 

Por outro lado, também se observa que um indivíduo com uma elevada potencialidade cognitiva, que o capacita a lidar com sérios fracassos na adaptação à necessidade, pode desenvolver um tipo de distorção da personalidade que Winnicott (1960/1983) denomina falso self, juntamente com uma perversão da atividade mental, à medida que ela é utilizada contra a psique. A hipertrofia dos processos intelectuais, nesses casos, corresponderia a uma reação defensiva contra um colapso esquizofrênico potencial. A atividade de pensamento acaba por se tornar inimiga da psique. 

O Verdadeiro e o Falso Self 

Ao formular a questão da constituição do self verdadeiro e falso, Winnicott (1960/1983) evidencia que o elemento autêntico no self constrói-se sobre a identificação com o objeto, ali onde se constitui um campo relacional, de onde a criança vai emergir como sujeito caso se aceite o paradoxo de que o objeto está ali porque ela o criou magicamente, ao passo que o falso self se constrói sobre a base do submetimento, quando o gesto espontâneo não pôde ser acolhido. 

"Quase poderíamos dizer que o self verdadeiro é o resultado de um encontro simbolizado". 

A mãe suficientemente boa como função materna, que responde à onipotência do bebê e de certo modo lhe dá sentido, como diz Winnicott (1971/1975c) em O brincar e a realidade, tem também uma função simbólica, à medida que outorga sentidos imaginários e, simultaneamente, tem de se fazer falhante na sua capacidade de dar resposta, embora deva introduzir a falha de modo gradual. É necessário que ela suporte profundamente e sustente por um bom tempo – o tempo suficiente – o gesto através do qual o desejo da criança tenta se escrever com o corpo. 

A constituição do falso self surge também como uma defesa paradoxal, solução de continuidade que vem preservar a continuidade do ser no self verdadeiro ameaçado. Com a organização do falso self, o sujeito almeja proteger o self verdadeiro de novos ataques. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência baseada na resignação, na qual importa sobreviver em vez de viver. Proteção contra a regressão a estados de não-integração, testemunhando o esforço que demanda ao self esta tarefa de unificação, de manter separado o que é ego do que não é. É a função materna que garantirá a continuidade do sentimento de existir da criança e evitará a reação que resultará na dissociação, culminando com a organização de um falso self. 

Fundação do Campo Transicional: Os Efeitos do Paradoxo Aceito 

O campo transicional é constituído, como vimos, no desdobramento entre o subjetivo e o objetivo. Os objetos e fenômenos transicionais pertencem ao domínio da ilusão, que está na base do início das experiências que marcam o desenvolvimento emocional precoce. É o campo da experimentação intensa e da ilusão por excelência, sustentado por um paradoxo que, ao longo do processo de desenvolvimento da criança, deve ser aceito e respeitado (Winnicott, 1951/1978).

O objeto transicional sinaliza a transição do bebê desde um estado de fusão com a mãe até um estado em que ele está em relação com ela como um objeto externo e destacado. Mas, para que a criança evolua desse estado de dependência absoluta, essencial nos estádios mais primitivos, para uma condição de autonomia possível, é preciso que ela primeiro tenha se certificado de que pode existir algo que não faz parte dela – o que Winnicott (1951/1978) chama de primeira possessão não-eu, representada pelo objeto transicional. 

Desse modo, na presença de condições favoráveis, à medida que se desenvolvem os interesses culturais, o objeto transicional do bebê vai sendo gradualmente desinvestido, embora uma parte desta área intermediária de experimentação seja conservada na vida adulta no plano das artes, da religião, das ciências e de todas as manifestações criativas do ser humano (Green, 1978/1988). 

A Capacidade para Estar Só e o Jogo Possível com a Realidade 

Segundo Winnicott (1958/1983), a capacidade para estar só depende da criação de um espaço de solidão na presença da mãe, porém como se ela não estivesse realmente lá. Entretanto, é preciso que ela esteja lá de fato, para que a criança possa experienciar o sentimento do ausentar-se. É necessário guardar uma distância ótima da figura materna, o que significa que ela deve estar suficientemente próxima e suficientemente distante. A criação de um espaço de solidão torna possível a elaboração fantasmática. 

Portanto, o fracasso na constituição dessa área de solidão, seja por excesso de ausência ou por presença em demasia do objeto materno, produziria uma paralisia na atividade de pensar. Sabemos que a paralisia do pensamento é uma característica muito comum dos pacientes psicóticos. Essa estagnação tem sua origem na falência precoce da organização de um espaço de intimidade psíquica, que serviria de continente que abrigaria os pensamentos e a própria atividade do pensar. 

Referências Bibliográficas

Green, A. (1988). O desligamento. Em Sobre a loucura pessoal (pp. 280-299). Rio de Janeiro: Imago.

Green, A. (1994). O mito: Um objeto transicional coletivo. Em O desligamento: Psicanálise, antropologia e literatura (pp. 117-141). Rio de Janeiro: Imago.

Winnicott, D. W. (1975a). O uso de um objeto e relacionamento através de identificações. Em: O brincar e a realidade. (pp. 121-131). Rio de Janeiro: Imago. 

Winnicott, D. W. (1978). Objetos transicionais e fenômenos transicionais. Em D. W. Winnicott (Org.), Textos selecionados: Da pediatria à psicanálise (2ª ed.pp. 389-408). Rio de Janeiro: Francisco Alves

Winnicott, D. W. (1978). Psicose e cuidados maternos. Em D. W. Winnicott (Org.), Textos selecionados: Da pediatria à psicanálise (2ª ed. pp. 375-387). Rio de Janeiro: Francisco Alves 

Winnicott, D. W. (1983). Distorção do ego em termos de falso e verdadeiro self. Em D. W. Winnicott (Org.), O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional (pp. 128-139). Porto Alegre: Artes Médicas 

Winnicott, D. W. (1983). Enfoque pessoal da contribuição kleiniana. Em D. W. Winnicott (Org.), O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional (pp. 156-162). Porto Alegre: Artes Médicas 

Winnicott, D. W. (1983). Dependência no cuidado do lactente, no cuidado da criança e na situação psicanalítica. Em D. W. Winnicott (Org.), O ambiente e os processos de maturação: Estudos sobre a teoria do desenvolvimento emocional (pp. 225-233). Porto Alegre: Artes Médicas 

Winnicott, D. W. (1990). O gesto espontâneo. São Paulo: Martins Fontes.

 

Idalina A de Souza

Psicóloga Clínica – CRP: 6/65192

Analista Junguiana, membro da Associação Junguiana do Brasil – AJBI

Membro da International Association of Analytical Psychology – IAAP/Zurique

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