Jung e o Fausto

Psicologia Analítica

Fausto

Arquétipo: 

Pode ser definido como

- a parte herdada da psique;

- padrões estruturais do desempenho psicológico ligados aos instintos;

- uma entidade hipotética irrepresentável em si mesma e evidente apenas quando das suas manifestações.

Desenvolvimento da teoria:

 - 1912: Jung escreve sobre as imagens primordiais que ele reconhecia na vida inconsciente de seus pacientes e na sua própria. Estas imagens eram semelhantes a motivos repetidos universalmente. A principal característica  destas imagens eram a sua numinosidade, a sua inconsciência e a sua autonomia. Jung conclui, então, que estas imagens são produzidas pelo inconsciente coletivo.

- 1917: Jung publica que pontos nodais, dominantes na psique, capazes de atrair energia e alterar o funcionamento psíquico do indivíduo.

- 1919: Pela 1° vez, Jung utiliza o termo arquétipo. Reitera que os arquétipos são conteúdos do inconsciente e não o próprio inconsciente e que o arquétipo não alcança a consciência. O que é vivido psiquicamente e também, corporalmente, é a sua imagem.

O arquétipo é um conceito psicossomático que liga corpo e psique, instinto e imagem.

Os arquétipos são reconhecidos nos comportamentos exteriores, especialmente aqueles de conotação universal como nascimento, casamento, maternidade, paternidade, morte, separação. Do ponto de vista da vida interior, eles se revelam através de figuras da Anima, Animus, Persona, Sombra.

Os padrões arquetípicos esperam para se realizar na personalidade, são capazes de infinitas variações, são dependentes da expressão individual e exercem uma fascinação sobre o indivíduo, reforçada pelas tradições e pela cultura. 

Os arquétipos evocam os mais exuberantes afetos, cegam o indivíduo para a realidade objetiva e se transformam em verdadeiras possessões. 

A Persona

O termo designa a máscara usada pelo ator teatral, tanto cômico quanto trágico, no decorrer da representação. Ela é a máscara que aparenta uma individualidade, procurando convencer os outros e a si mesmo de que é o que se mostra (e ele próprio crê nisto), quando, na realidade, não passa de um papel desempenhando, muitas vezes frágil e vulnerável, outra vezes, arraigado à personalidade, a tal ponto que a individualidade “se torna” a persona.

A persona não coincide com o Eu enquanto indica a relação do Eu com o mundo e mais profundamente a relação originária do Eu com o mundo.

A PERSONA É, PORTANTO, RELAÇÃO DO EU COM O MUNDO E, AO MESMO TEMPO, A CONSEQUÊNCIA DESTA RELAÇÃO.

Ela representa:

   o representante da psique coletiva dentro da própria personalidade individual; 

   uma variação da personalidade individual que gira ao redor do ego  e cuja relação com este eu muda constantemente no decorrer da vida;

   a imagem que o indivíduo mostra externamente, e enquanto tal um dos aspectos mais exteriores do próprio indivíduo;

   o papel ou o status social do indivíduo nas relações com o mundo (cultura e sociedade) e o aspecto que este indivíduo assume  nestas relações;

   a adaptação do indivíduo aos aspectos sociais e a sua visibilidade a estes aspectos;

   o conjunto de atitudes convencionais do Indivíduo enquanto pertencente a uma tradição;

   o invólucro das modalidades expressivas, dos sentimentos e dos pensamentos dos quais o indivíduo é revestido na relação que mantém com os estereótipos conscientes e inconscientes.

O Complexo

O complexo de tonalidade afetiva indica uma estrutura psíquica mínima, inconsciente, dotada de forte carga afetiva, que liga entre si representações, pensamentos e lembranças. 

São entidades autônomas dentro da psique e pode se manifestar também de forma autônoma, alheia aos mecanismos de defesa do ego. Isto significa e demonstra que, por mais defesa que o ego detenha, a manifestação dos conteúdos inconsciente, via o complexo, acontecerá.

Os complexos se constituem nas relações do indivíduo com as pessoas significativas, com figuras de autoridade ou ainda devido às questões sociais, históricas e culturais.

Recomendo o livro: The Cultural Complex: Contemporary Jungian Perspectives on Psyche and Society

Para Jung, o complexo é Via Régia para o inconsciente e  o Arquiteto dos Sonhos.

Os complexos dizem respeito à questões incrustadas na memória e constroem uma ponte entre o que é pessoal e o que é arquetípico.

Ex. o complexo paterno se constitui da imagem arquetípica do pai e também é um agregado de todas as interações com a figura de pai de todos os tempos. Em conseqüência, todo este colorido recai sobre as experiências com o pai biológico.

Quando os complexes atuam no comportamento do indivíduo as defesas do ego, antes estruturadas e eficientes se desmoronam  e o indivíduo fica como que tomado, submetido.

A Sombra

Jung define a sombra como sendo “a coisa que uma pessoa não gostaria  de ser”.

Nesta frase tão simples, Jung define a sombra como sendo a parte negativa da personalidade de um indivíduo, a soma das qualidades negativas que todos queremos esconder, o lado primitivo da natureza humana. É aquele inferior, o que não vale nada, que não vale à pena. É o outro, o escondido, o escuro, o tremendo. Jung estava muito bem informado a respeito do MAL NA NATUREZA HUMANA.

Todos carregamos a sombra em nós. Quanto menos ela é encarnada, quanto mais ela é inconsciente, mais densa e negra ela é. Se uma inferioridade é consciente, tem-se a chance de correção. Além disto, esta sombra estará constantemente em contato com outros interesses, portanto, sujeita a modificações. Se ela é reprimida e isolada da consciência, nunca ela será corrigida e modificada e estará sujeita a jorrar repentinamente em um momento de descuido. Inevitavelmente, ela forma um obstáculo escondido que impede AA nossas mais bem pensadas intenções (CW 11, para. 131)

O indivíduo que é capaz de reconhecer que a sombra é uma parte viva da personalidade e que ela quer viver mais e mais, de alguma forma, também é capaz de identificá-la com os conteúdos do seu inconsciente pessoal, sabendo que ela faz parte do inconsciente coletivo.

Desta forma, em outras palavras, é impossível erradicar a sombra. Conseguintemente, o confronto é o melhor caminho, só desta forma ocorrerá uma apropriação legítima da energia aprisionada, agora disponibilizada para a criatividade.

Dado que a sombra é um arquétipo, os seus conteúdos são poderosos, marcados pelos afetos de toda ordem. Ela é obsessiva, possessiva, autônoma capaz de sobrepujar o ego mais estruturado

Como todo conteúdo capaz de adentrar a consciência, inicialmente a sombra aparece como projeção e quando consciente ela é assustadora. Ela se manifesta projetada em alguém de forma forte, irracional, negativa. 

Jung mostra a convincente explicação de que, não apenas as antipatias pessoais, mas também todas as crueldades e perseguições do nosso tempo são as ações das projeções individuais e coletivas, de um indivíduo ou de um povo ou nação.

Fausto

Fausto é o protagonista de uma popular lenda alemã de um pacto com o demônio, baseada no médico, mágico e alquimista alemão Dr. Johannes Georg Faust (1480-1540).

Fausto, ainda que tenha origens históricas numa personalidade real, que vive na Alemanha do final da Idade Média e recebeu o status de personagem literário durante a Renascença, no período em que a Idade Moderna desponta no horizonte da história, ganhou grande expressão sobretudo com o Romantismo, ingressando na literatura moderna como a representação por excelência do homem em sua busca por decifrar os sentidos do mundo. Mais do que isso, Fausto dá corpo à pulsão, tão característica do homem moderno, de tomar posse do mundo e da natureza, arrebatando o status de criador das mãos de uma divindade onipotente e tornando-se ele próprio senhor absoluto do universo em que vive, mesmo que isso implique renunciar à idéia de imortalidade, à qual se liga o conceito de alma.

Considerado símbolo cultural da modernidade, Fausto relata a tragédia do Dr. Fausto, homem das ciências que, desiludido com o conhecimento de seu tempo, faz um pacto com o demônio Mefistófeles que o enche com a energia satânica insufladora da paixão pela técnica e pelo progresso.

No afã de superar os conhecimentos de sua época, Fausto evoca espíritos e, por fim, Mefistófeles, o demônio, palavra que significa, etimologicamente, inimigo da luz.  Com ele negocia, em pacto de sangue, viver por vinte e quatro anos sem envelhecer, e depois é levado ao inferno.

Núcleos de complexos do Dr. Fausto:

Arrogância;

Orgulho;

Vaidade;

Ambição;

Mentira;

Persona do Dr. Fausto:

Médico;

Alquimista;

Salvador dos doentes;

Interessado em bem social, além de si mesmo.

Mefistófeles

Deriva do grego e significa aquele que odeia a luz. Desde a Idade Média, a palavra se refere a muitas entidades demoníacas e ao anticristo

Mefistófeles é a sombra do Dr Fausto, construída a partir da formação de complexos inconscientes.

Goethe se utiliza desta figura arquetípica para designar a capacidade que a sombra, não integrada à personalidade, portanto, mantida inconsciente, tem de produzir alterações profundas nas metas de desenvolvimento de um indivíduo.

A manifestação da sombra tem implicações pessoais, sociais e históricas, constituindo flagelos e desgraças sobre a humanidade de difícil reparação.

Este arquétipo pode ser reconhecido em todas as escrituras em todas as civilizações humanas e também no Velho Testamento:

Ai dos que habitam sobre a terra e nas profundezas do mar, porque o diabo desceu a vós com grande ira, sabendo que ele tem pouco tempo”. Revelation 12:12

Mefistófeles é a imagem do arquétipo do Mal. O arquétip do Mal, existe como tal.  O Bem também é um arquétipo e existe como tal. 

O Mal é o quarto elemento:

O 1° é a função principal, o 2° a secundária; o 3° a função que está entre o consciente e o inconsciente e o 4° a função totalmente inconsciente, que irá se manifestar na medida da ignorância de cada um a respeito de si próprio.

Tomando por base a frase socrática, pode-se refletir a força que, o desconhecimento de si mesmo tem sobre toda a questão do humano e da sociedade em que este humano vive.

Sócrates

A frase de Sócrates, no templo de Apolo em Delfos, dá a receita para a grande, total e permanente evolução do homem.

Conhece-te a ti mesmo,

E saiba a sua medida.

Assim conhecerás todos os deuses e todos os mundos.

Conhecer-se significa estar em contato o mais consciente possível com os complexos, corajosamente reconhecendo a sombra e buscando nela as soluções criativas e iluminadas que também estão contidas na sua negritute.

Saber a própria medida significa reconhecer o orgulho e a onipotência como conteúdos importantes da personalidade, frutos, principalmente,  do complexo de inferioridade.

Conhecer TODOS os deuses e os mundos pode ter como consequência:

1. Adentrar novamente na “roda da vida”, numa compulsão à repetição, desenvolvendo a multiplicação das desgraças porque o orgulho e a onipotência retomam o seu trono na psique ou,

2. Adentrar a um novo nível de compreensão de si mesmo e do outro, capaz de propiciar o desenvolvimento de capacidades de percepções, o desenvolvimento de novas e fantásticas habilidades, a apreensão de comunicações transformadoras, advindas do inconsciente profundo e do próprio Self.

Jung

Tomemos por base a experiência do próprio Jung, na busca de si mesmo:

“Em minha juventude (por volta de 1890), eu estava inconscientemente preso por esse espírito da idade, e não tinha métodos ao meu alcance para me desvencilhar disso. 

Fausto me laçou e me prendeu de uma forma que eu não poderia deixar de considerar como pessoal. Acima de tudo, despertou em mim o problema dos opostos, do bem e do mal, mente e matéria, luz e trevas. Fausto, o incapaz, filósofo obtuso, encontra o lado negro do seu ser, sua sombra sinistra, Mefistófeles, que a despeito de sua disposição negativa representa o verdadeiro espírito da vida contra o árido estudioso que paira a beira do suicídio. Minhas próprias contradições interiores apareceram aqui de forma dramatizada; Goethe tinha escrito praticamente um esboço do padrão básico dos meus conflitos e soluções. Em outras palavras, eu estava diretamente preso e consciente que aquele era o meu destino. Conseqüentemente, todas as crises de drama me afetaram pessoalmente; em um ponto eu tinha que concordar passionalmente, eu outro me opor. Nenhuma solução poderia ser uma questão de indiferença para mim. Mais tarde eu liguei conscientemente meu trabalho com o que Fausto havia passado.

 

Referências Bibliográficas

Goethe, W. : Fausto. Tradução de Jenny Klabin Segall, 5° edição. Editora Itatiaia, Belo Horizonte, 2002

Edinger, E. F.: Goethe´s faust: Notes for a Jungian Commentary, Inner City Books, Toronto, 1990.

Samuels, A., Shorter, B., Plaut, F.: A critical dictionary of Jungian Analysis. Routledge Editors, London and New York, 2005

Singer T., Kimbles, S.: The Cultural Complexes: Contemporary Jungian Perspectives on Psyche and Society. Routledge Editors, London and New York, 2008.

Jung, C. G.: Memórias, Sonhos e Reflexões, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1963.

Pieri, P. F.: Dicionário Junguiano, Editora Vozes, Petrópolis, 2002.

 

12/01/2012

Idalina A de Souza

Psicóloga Clínica – CRP: 6/65192

Analista Junguiana, membro da Associação Junguiana do Brasil – AJBI

Membro da International Association of Analytical Psychology – IAAP/Zurique

 
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